O minicurso de Letramento LGBTQIA+ surgiu a partir de uma necessidade percebida no cotidiano da SEPLAG. Ao elaborar formulários, documentos e materiais institucionais, diferentes equipes frequentemente encontravam dúvidas sobre quais identidades de gênero e orientações afetivo-sexuais deveriam ser contempladas e sobre como utilizar adequadamente a sigla LGBTQIA+. Ao mesmo tempo, algumas pessoas tinham dificuldade para identificar, nos próprios formulários, quais opções correspondiam à sua realidade.
A partir dessas situações, surgiu a oportunidade de transformar dúvidas recorrentes em um momento estruturado de aprendizado. Assumi a frente da iniciativa por já atuar como uma referência no tema dentro da Secretaria, a partir da minha experiência, estudos e atuação na área de diversidade e inclusão.
O projeto foi desenvolvido para pessoas com diferentes níveis de familiaridade com a temática. Uma das principais preocupações na concepção da formação foi evitar uma abordagem excessivamente técnica ou especializada. Em experiências anteriores, percebi que formações sobre diversidade muitas vezes partiam diretamente de conceitos complexos, o que poderia dificultar o acompanhamento de quem estava tendo o primeiro contato com o assunto.
Por isso, a metodologia foi construída a partir dos conceitos mais básicos e avançou gradualmente para discussões mais complexas. A proposta era explicar cada conceito com clareza, inclusive aqueles que poderiam parecer óbvios, criando uma base comum de conhecimento antes de avançar para questões mais específicas.
Também optei por não estruturar a formação como uma aula exclusivamente expositiva. O minicurso combinou apresentação de conteúdo, exemplos, discussões e três dinâmicas interativas, criando momentos para que as pessoas pudessem aplicar, testar e refletir sobre os conceitos apresentados.
A formação começa discutindo o conceito de sexo biológico e questionando a ideia de que as classificações relacionadas ao sexo são apenas categorias naturais e imutáveis. A partir desse ponto, introduzo a discussão sobre como expectativas sociais relacionadas às características biológicas começam a ser construídas desde antes do nascimento e influenciam a forma como as pessoas são percebidas e esperadas pela sociedade.
Em seguida, apresento a diferença entre sexo biológico, identidade de gênero e expressão de gênero, aprofundando conceitos como pessoas cisgênero e pessoas trans.
O objetivo é construir uma compreensão gradual sobre a diferença entre como uma pessoa se reconhece e como expressa seu gênero, evitando que conceitos diferentes sejam tratados como sinônimos.
A formação então aborda orientação afetivo-sexual, utilizando o termo “afetivo-sexual” justamente para contemplar também experiências em que não existe atração sexual.
Nesse momento, discutimos a diferença entre orientação e identidade de gênero e reforçamos que orientação afetivo-sexual não é uma escolha ou uma opção.
A partir daí, a formação passa a discutir uma questão central: se identidade de gênero e orientação afetivo-sexual são conceitos diferentes, por que eles estão reunidos dentro de uma mesma comunidade?
A resposta passa principalmente pela história compartilhada de discriminação, violência e luta por reconhecimento e direitos, sem apagar as particularidades e experiências distintas de cada grupo.
Depois de estabelecer essa base conceitual, apresento a evolução histórica das siglas utilizadas para representar a comunidade, passando pela antiga MHB até a atual LGBTQIA+.
A partir daí, cada letra da sigla é apresentada individualmente, explicando suas características e diferenças.
Também abordo uma dúvida recorrente: onde entram as drag queens?
A discussão serve para diferenciar identidade de gênero, orientação afetivo-sexual e expressão artística, mostrando que ser drag queen não define necessariamente a identidade ou a orientação de uma pessoa.
Dinâmica 01 — Ache o seu par
A primeira dinâmica transforma o conteúdo sobre a sigla em uma atividade prática.
A turma é dividida em dois grupos. De um lado, ficam cartões com diferentes bandeiras da comunidade; do outro, cartões com as letras da sigla e suas respectivas descrições. Cada participante precisa encontrar o par que acredita ser correspondente.
Depois que todos fazem suas escolhas, as respostas são conferidas coletivamente a partir das informações apresentadas no verso dos cartões.
Além de reforçar os conteúdos apresentados, a dinâmica trabalha a pluralidade existente dentro da comunidade e mostra que existem diferentes formas de comunicar a própria identidade. Também abre espaço para discutir como símbolos e bandeiras utilizados em perfis de redes sociais podem funcionar como formas de identificação, evitando que a responsabilidade de explicar sua identidade recaia sempre sobre a própria pessoa.
A formação avança então para uma discussão sobre como as experiências dentro da própria comunidade LGBTQIA+ não são iguais.
A partir dos conceitos de heteronormatividade e cisnormatividade, abordo como diferentes características e contextos — como raça, deficiência, corpo, gênero e condição social — podem alterar significativamente a experiência de uma pessoa LGBTQIA+.
A proposta é mostrar que falar sobre diversidade não significa tratar a comunidade como um grupo homogêneo, mas reconhecer a sobreposição de diferentes experiências e formas de desigualdade.
Dinâmica 02 — Eu tô por dentro
A segunda atividade é um quiz com 14 perguntas sobre diferentes aspectos da comunidade LGBTQIA+.
A dinâmica funciona como uma pausa na exposição e, ao mesmo tempo, como uma ferramenta de revisão do conteúdo. As perguntas permitem trabalhar fatos históricos, conceitos, direitos e algumas curiosidades, além de revelar o quanto determinadas conquistas são recentes.
O formato também cria um ambiente mais descontraído para discutir temas que, em uma abordagem exclusivamente expositiva, poderiam parecer mais distantes ou difíceis de assimilar.
A formação não termina na apresentação de conceitos.
Como o público era formado majoritariamente por pessoas que não fazem parte da comunidade LGBTQIA+, uma parte importante do curso foi dedicada à pergunta:
“Não é a minha luta. Mas como eu posso ajudar?”
A partir dela, apresento atitudes concretas que podem contribuir para ambientes mais respeitosos e inclusivos, como:
A proposta é deslocar a discussão da ideia de “conhecer sobre a comunidade” para a possibilidade de agir de forma mais consciente no cotidiano.
Também foi incluído um momento específico para discutir como agir diante de uma situação de discriminação.
A partir das normas e princípios que orientam a atuação dos servidores municipais, apresento o respeito às diferenças e o enfrentamento às diferentes formas de violência como parte da responsabilidade de quem trabalha na administração pública.
A formação também aborda o reconhecimento da LGBTQIA+fobia como crime e apresenta o Código de Ética e Integridade do Agente Público Municipal como uma referência para a conduta profissional.
Mais do que explicar que determinadas atitudes são inadequadas, essa etapa procura responder a uma questão prática: o que uma pessoa pode fazer quando presencia uma situação discriminatória?
A discussão apresenta possibilidades de intervenção, acolhimento e encaminhamento, reforçando que o enfrentamento à discriminação não depende apenas de quem sofre a violência.
Na etapa final do conteúdo, apresento políticas públicas existentes em Niterói voltadas à população LGBTQIA+.
O objetivo é contextualizar as discussões anteriores e mostrar como conceitos, direitos e enfrentamento à discriminação também se relacionam com ações concretas.
Esse momento também abre espaço para uma reflexão sobre os avanços conquistados e sobre os desafios que ainda permanecem na garantia de direitos e na construção de ambientes mais inclusivos.
Dinâmica 03 — Liberte-se do ódio
Para encerrar a formação, criei uma dinâmica de caráter simbólico.
Cada participante recebe um papel para escrever, sem precisar compartilhar com o grupo, uma palavra ou frase relacionada a uma situação de ódio, violência ou discriminação que tenha presenciado ou vivenciado.
Depois, o papel é amassado e descartado.
A atividade representa o encerramento simbólico daquele ciclo e retoma uma ideia central da formação: experiências de violência podem deixar marcas, mas o conhecimento adquirido também pode transformar a maneira como novas situações são enfrentadas.
No contexto profissional, a dinâmica reforça especialmente a responsabilidade coletiva pela construção de um ambiente em que situações de desrespeito não sejam naturalizadas ou reproduzidas.
Além da estrutura pedagógica e da facilitação das quatro turmas, também desenvolvi os materiais utilizados durante a formação.
Criei os cartões das dinâmicas, apresentações e materiais de apoio e produzi manualmente cadernetas e marcadores de página entregues como lembrança às pessoas participantes.
A intenção era estender a experiência para além das horas de formação e criar materiais que as pessoas pudessem levar consigo.
O minicurso foi realizado em quatro turmas, sendo duas em agosto de 2024 e outras duas em maio de 2025.
Ao longo das quatro edições, houve participação ativa de quase toda a equipe da SEPLAG.
A formação foi desenvolvida inicialmente para responder a uma necessidade concreta da rotina de trabalho, mas acabou se tornando também um espaço de aprendizado, troca e reflexão coletiva sobre diversidade, linguagem, direitos e convivência.
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